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Contos - Enviado dia 2 de Dezembro de 2014

Cratera do Fim do Mundo


1

Certos livros, por mais inocentes e virtuosos que possam parecer, às vezes podem ser muito assustadores, sobretudo quando o observador de suas páginas é uma criança de cinco a seis anos de idade. 

Foi nesta época que eu conheci a Bíblia, em uma versão ilustrada que era lida pelo meu pai. Ele gostava de contar todas aquelas aventuras épicas, intercalando histórias de glória com atos de danação e expiação. Eu sempre ouvia tudo com bastante atenção. Entretanto, algumas partes me causavam sustos pavorosos, seguidos de choros e gritos ensandecidos de terror. 

O que mais me causava aflição eram as passagens mórbidas, onde via pessoas sendo transformadas em estátuas de sal, apenas por olhar para trás, quando tinham sido taxativamente proibidas de assim agir. Tremia assustado também quando visualizava ilustrações onde homens imponentes com asas empunhavam espadas ameaçadoras, enquanto o mundo ardia em chamas a seus pés. À noite, quando tinha pesadelos sonhando com estes seres alados, minha mãe sempre vinha me acalmar, dizendo que eram anjos da guarda, que estariam sempre ao meu redor, me protegendo contra qualquer mal, bastava apenas que eu respeitasse os mandamentos divinos ou fizesse uma prece respeitosa. 

Os anjos ficavam enfurecidos com os seres humanos apenas se algum pecado fosse cometido, segundo me foi ensinado.

Passaram-se 34 anos do meu primeiro encontro com a Bíblia, mas o pavor de ser severamente castigado acaso cometesse algum pecado primordial guiaram meu comportamento durante este período. 

Acho que nos últimos meses eu infringi alguns mandamentos originais, mas, acima de tudo eu sou um ser humano, confessei meus pecados a um padre na intenção de ser perdoado. O mais medonho deles foi quando disse que estava traindo minha esposa há dois meses, com sua melhor amiga. Fui me confessar com um pároco de um bairro distante, com medo de ser reconhecido. Ao chegar ao confessionário lhe disse:

— Padre, não consigo mais guardar este segredo, estou traindo a minha esposa. Eu a amo demais, o que sinto pela sua amiga é apenas desejo carnal. Ao contrário da minha mulher, a amiga faz coisas inacreditáveis na cama, você entende a situação padre? 

— Claro meu filho...digo, acho que em tese eu sei o que você está passando.  Um dos pecados mais difíceis de combater é o vício da carne. — respondeu o padre. — Se arrependa sinceramente e tudo será perdoado pelo nosso pai celestial.

2

Hoje é dia 30 de Setembro de 2018, pelo menos acho que seja. Faz pouco mais de um mês que tive esta conversa com o padre. Depois disso apenas vi a Marília (amiga da minha esposa) uma vez. Falei-lhe que tudo havia sido um erro, que era melhor acabar de vez com esta situação. Ela entendeu, não queria permanecer com aquilo. A amizade e o respeito deviam superar o desejo carnal.

Escrevo estas palavras no pequeno bloco de colorir do meu filho. Contarei o que passei nos últimos dias. O mundo como conhecemos acabou, acredito piamente que tal fato é uma punição vinda dos céus, em virtude dos diversos pecados cometidos pela humanidade no decorrer das últimas décadas. Eu mesmo tive minha parcela de culpa para este quadro de total desrespeito aos escritos divinos. Os sinais eram claros (guerras, fome, catástrofes). Apenas os fracos de fé não perceberam isto. 

Creio que possam existir outros sobreviventes, espero que um dia alguém saiba o que aconteceu comigo e faça uma prece pela salvação da minha alma.   

Andava cansado, estressado e com um sentimento de culpa latente. Conversei com minha esposa Roberta e juntos resolvemos que seria bom passar o final de semana prolongado em comemoração à independência do Brasil na nossa chácara, situada a 45 quilômetros do balneário de São Vicente. O local é de difícil acesso, com estradas sinuosas e declives perigosos; somente podendo ser trespassada por veículos de alta potência. É um lugar perfeito para quem deseja descansar alguns dias em feriados estendidos. Durante o caminho Roberta parecia alegre e amável. Ouvi quando o celular dela tocou, era Marília. Eu gelei até que ela pronunciasse algum som.

— Sim amiga, está tudo bem e você? Como anda a situação com o namorado misterioso que anda escondendo de mim?

Suava frio, olhava ao redor clamando que o sinal do celular falhasse, mas Roberta continuava falando com sua amiga.

— Sério? Nem conheci este homem misterioso e já terminaram? Pelo menos este relacionamento durou algumas semanas. Assim que voltarmos vamos nos encontrar e colocar o papo em dia, quero saber todos os detalhes, todos. 

Finalmente o martírio de ouvir aquela bizarra conversa havia terminado. Já estávamos perto de chegar à chácara, faltando apenas alguns minutos. Meu filho Rafael dormia no banco de trás da camionete, enquanto Roberta tentava ler mensagens postadas em redes sociais no seu celular. 

No painel multimídia sintonizei a única estação de rádio existente nas redondezas. Ouvi o discurso de um pastor uivando com voz grave e soturna palavras do Livro Sagrado, se não me falha a memória, a frase que mais me causou impacto foi uma mensagem contida em Isaias, Capítulo 14, Versículo 15, que dizia: “Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo”.  

No geral, o representante celestial conclamava a todos que se preparassem para o fim dos tempos. 

Os sons começaram a falhar, com zumbidos impertinentes. Tentei encontrar novamente a frequência, mas a transmissão havia sido interrompida. Pensei que o aparelho de som havia quebrado. 

Chegamos quarta-feira à noite. Lembro-me de ter ligado a TV por alguns momentos antes de ir me deitar. Em um canal notoriamente sensacionalista o apresentador dizia que a agência espacial chinesa havia detectado um meteoro em rota de colisão com a terra, mostrando a seguir pessoas correndo em desespero pelas ruas de Pequim. 

Já tinha visto muita baboseira naquela emissora, mas aquilo tudo excedia todos os limites de tolerância, soando como mais uma notícia desesperada em busca de telespectadores. Notei que meu filho ficou assustado com as imagens simuladas de destruição em massa que passavam na tela e desliguei o aparelho, aquele canal era soberano em divulgar matérias mentirosas e levianas como estas.

— Papai, por que o mundo vai acabar? Deus tá zangado com a gente?

— Não filho, fique calmo, isto não é nada, Deus sempre estará do lado dos bons.

Já na cama com minha esposa, antes de dormir, tentei acessar pelo celular várias páginas na internet e aplicativos de mensagens, mas não havia sinal, o que de fato estranhei, pois nesta região existem várias torres com antenas específicas para isto, onde a potente tecnologia de internet “6F6” não apresenta problemas, pelo menos quando comparado à defasada tecnologia 4G. 

Roberta também testou seu celular; tentou ligar para várias pessoas, não obtendo melhor sorte. Lá fora ouvi o som de galhos de árvores próximas tremulando, estranhei, pois antes de viajarmos consultamos as previsões do tempo e as chances de chover eram mínimas. Vi pela janela do quarto que relâmpagos riscavam a penumbra do céu de forma inclemente.  Cansados da viagem, nos beijamos e fomos dormir.

Na quinta-feira pela manhã acordei com um grande estrondo, era um trovão que retumbava forte no céu. Senti um calafrio percorrer todo o meu corpo. Ainda meio sonolento, escutei sons de pássaros voando de forma esquizofrênica do lado de fora. Lembrei-me das cenas criadas pelo mestre do suspense no filme “Os Pássaros”. Minha esposa despertou vagarosamente e perguntou ainda desorientada o que estava acontecendo, em outro quarto Rafael começou a chorar.

Senti o solo estremecer e a estrutura da casa começou a oscilar, aparentando querer desabar. Corremos para o quarto do meu filho, Roberta o pegou no colo e juntos fomos para a porta principal ver o que estava acontecendo. Quando puxei a maçaneta, trêmulo e suando, senti como se estivéssemos vivendo uma cena de filme catástrofe. O terreno a nossa volta estava ruindo, tudo desaparecia em imensas crateras que não tinham uma profundidade mensurável a princípio. Não faz muito tempo que vi algo similar nos noticiários, na época, as estranhas crateras surgiram repentinamente na Rússia, só que o que estava acontecendo conosco era infinitamente mais grave e poderoso.

Visualizamos a uns 50 metros de distância um pequeno veado que corria freneticamente em nossa direção, enquanto uma enorme onda vinha em seu encalço. A cena lembrava imagens de tsunamis devastando o litoral de países asiáticos. Apesar de rápido, o pobre animal foi engolido pela onda exterminadora, desaparecendo em meio à grossa camada de detritos. A gigantesca onda foi diminuindo paulatinamente ao se aproximar de nossa chácara, perdendo forças de vez ao ser sugada pelas crateras que haviam ser formado ao redor.

Os tremores continuavam, assim como o barulho forte de mar em fúria. Corremos para o interior da casa e ficamos abraçados esperando o pior acontecer. Passados alguns minutos o barulho apocalíptico cessou. Saímos e ficamos atônitos. Apenas a nossa casa e mais uns 40 metros ao redor estavam sólidos como antes, o restante da paisagem formava uma ciclópica imensidão cercada por água e detritos, era como se estivéssemos em uma ilha deserta.

O lado esquerdo da casa nos mostrava uma paisagem ainda mais lúgubre, com uma espécie de abismo gigantesco em crescente formação, onde argila de cor escarlate escorria. A terra sangrava. O planeta chorava com o seu fim propínquo, as lágrimas eram representadas pela fina garoa intermitente.

Não tínhamos o que fazer; sem energia, sem sinal de celular. Não sabíamos se aquele desastre havia ocorrido em outros locais ou somente naquela região. Verificamos o estoque de água, havia metade de um galão de 20 litros e mais outro cheio; alguma comida enlatada, bolachas, frutas e leite na despensa.

É difícil resolver o que fazer quando se presencia algo deste porte. Roberta e Rafael choravam copiosamente a maior parte do tempo. Foi em um destes momentos de puro desespero que ouvimos um som gutural surgir das profundezas do tenebroso mar a nossa volta. O barulho era fantasmagórico, lembrando os dinossauros e monstros alienígenas do cinema em vias de atacar. 

— Não acredito no que está acontecendo, acho que é nosso fim meu amor.

— Vou procurar algo para nos defender, alguma coisa feroz vem ao nosso encontro. — respondi a Roberta.

Corri para cozinha e peguei uma faca, mas depois de alguns minutos o estranho rugido cessou.

Passamos vários dias racionalizando água e comida, esperando que um avião ou helicóptero pudesse nos localizar e efetivar o nosso resgate. Roberta começou a ter comportamentos estranhos com o passar do tempo, muito agitados. Um dia ela me falou:

— João, a comida está acabando rápido, acho que durará apenas mais alguns dias, se o pior nos acontecer saiba que você foi o grande amor da minha vida, você e Rafael são a razão da minha existência.

Um filme em câmera lenta passou na minha mente neste momento. Relembrei as horas de sexo selvagem que tinha passado com a melhor amiga da minha esposa. Diante de tamanha declaração de amor eu baixei a cabeça e lhe disse:

— Tenha calma meu amor, vamos confiar que alguém está vindo nos resgatar.

Roberta suspirou, veio ao meu encontrou, me abraçou. Juntos choramos enquanto Rafael apenas nos olhava curioso. Porém, passado uns dois dias deste desabafo, quando estava na sala de jantar mostrando um antigo livro infantil para o meu filho, ela se dirigiu para a porta, estava chorando bastante, perguntei o que estava acontecendo e ela respondeu apenas “adeus”, abriu a porta e saiu correndo em direção ao poço maligno que crescia do lado esquerdo da casa. 

Corri o máximo que pude, mas não consegui alcançá-la. Roberta se atirou para o infinito profundo. Olhei para trás e vi meu filho em pé, na entrada da casa, gritando e chorando.

Depois de alguns dias tudo ficou “normal”, na medida do possível. Rafael demonstrava ter amadurecido uns cinco anos durante aqueles poucos dias e sempre perguntava quando a mãe iria voltar.

O pior ainda estava por vir. Aconteceu há cinco ou seis dias, não sei precisar, perdi um pouco a noção do tempo, a mim, parece que toda eternidade já se passou. Estava procurando alguma coisa que servisse para distrair Rafael. Achei um antigo brinquedo de madeira em uma caixa com objetos que separávamos para doação e fui lhe entregar. Vi que a porta estava aberta, ele sempre brincava em frente da casa. Ouvi um grito sibilante e corri na sua direção. 

Não acreditei quando presenciei aquela cena nefasta. Uma enorme criatura voadora, com mais de 4 metros, semelhante a um cavalo marinho gigante, com asas diabólicas e garras afiadas nas quatro patas havia capturado Rafael com suas extremidades descomunais. Pode parecer estranho, mas senti um pouco de alívio ao notar que os monstros não eram iguais aos antigos anjos que prenunciavam o fim dos tempos na Bíblia que via quando criança, embora as asas fossem quase idênticas.

Passado o impacto inicial, gritei e fiz gestos para afugentar o espectro medonho, tentando atingi-lo com algumas pedras, mas foi em vão. A criatura pegou meu filho com suas garras e o levou para as profundezas do abismo marítimo. Cai de joelhos, não acreditando que de fato ocorria aquele terrível pesadelo. Muitas vezes vi documentários onde pássaros visualizavam os peixes em pleno voou, mergulhavam e tiravam o alimento da água. Aquilo tinha sido parecido, mas em sentido contrário, levaram meu filho da terra firme para o profundo e desconhecido mar de sangue. Provavelmente Rafael foi devorado ainda vivo, tento acreditar que não, que por algum milagre ele e Roberta irão retornar a qualquer momento.

Depois do ocorrido eu evitava sair durante o dia, mas confesso que vi apenas algumas vezes aqueles estranhos seres alados se aventurando tendo o sol como testemunha. O que pude notar, olhando escondido pelas grades das janelas da residência, segurando apenas facas em minhas mãos, era que as bestas conseguiam ficar um tempo limitado, alguns minutos, no máximo uma hora fora do ambiente aquático, como é comum em espécimes animais conhecidos pela humanidade. Comecei a apelidá-los de “Cavalos do Apocalipse”, embora apenas no aspecto físico lembrassem os inofensivos cavalos marinhos.

Eles demonstravam ser mais ativos especialmente no período da madrugada, contudo, a cada novo dia, os predadores atacavam com maior ferocidade a minha casa, buscando pontos vulneráveis na estrutura. Felizmente a construção antiga era sólida o bastante para mantê-las longe, havia sido feita com muito esmero pelo meu pai. 

O que mais me desgastava nestes sistemáticos ataques era que tinha que permanecer em estado de vigília por tempo indeterminado, dormindo no máximo três horas por dia. A falta de descanso profundo aliado a pouca ingestão de calorias foram desgastando aos poucos todo o resto de esperança vil que nutria em minha alma, de poder reencontrar minha amada e meu querido filho. Queria poder ter a chance de olhar novamente nos olhos da minha esposa, dizer que a amava, que a vida sem ela era apenas um imenso vazio que não podia ser preenchido.

Posso estar sofrendo alucinações, contudo, claramente ouço as criaturas emitindo grunhidos que imitam a voz humana, como se fossem sereias proclamando seu canto mortal. Várias vezes escutei ao longe a gótica melodia do terror, trazida pela força do vento. Os seres sussurravam o meu nome, diziam apenas: “João, junte-se a nós”. Como é horrível ser chamado por criaturas tão medonhas. 

Mesmo regrando, a água e a comida acabaram rapidamente. Não nutro mais expectativas sobre o futuro, só me resta ir com dignidade. Vou aproveitar este belo fim de tarde. Acredito que Deus castigou finalmente os pecadores, mandando seus anjos para exterminar os seres humanos. Podem não ser belos como os das gravuras de pintores medievais, mas foi erro do homem acreditar que o fim seria dotado de beleza. Há décadas que via os sinais, será que poderia ter feito algo para evitar? Não sei. Talvez o castigo tenha vindo por meio do asteroide que a TV anunciava, nunca saberei, não agora, não enquanto estiver fazendo parte desta vida ordinária.

Deixo aqui minhas últimas palavras e mergulho na escuridão eterna. 

3

João deixou o que fora escrito numa mesa da sala de estar. Saiu caminhando de forma altiva para a cratera que seria seu sepulcro eterno.

Jogou-se de costas no abismo infernal. Só então ele se deu conta, ao cair, que dois helicópteros surgiam no céu, tendo ao fundo o por do sol. 

Ele sentiu que a vida continuava, o ser humano lutaria para sobreviver, mesmo contra forças inimagináveis, vindas do céu ou do inferno, mas não teria esta oportunidade de combater, seu mundo havia acabado com a morte da família. Começou a ouvir abaixo o tilintar de asas e sussurros se aproximando. Fechou os olhos na certeza de que faltavam apenas alguns segundos para estar novamente com os entes queridos.




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