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Contos - Enviado dia 20 de Dezembro de 2014

A Aparição de Nossa Senhora


A APARIÇÃO DE NOSSA SENHORA

 

 

 

 

 

        
A seca já perdurava por muito tempo, a paisagem da caatinga tinha
ganhado uma efígie que muitos ainda não tinham visto em tempos passados, o
pouco de talos de avelóz que ainda se mantinha verde na copa dos pés era cortado
para alimentar algumas cabras e bodes que de tão magros não dava para abater,
pois estavam só o couro e o osso.

 

         
O por do sol que fazia parte daquela paisagem colorindo o sertão com
cores quentes deixava a noite se aproximar lentamente. A estrela d’alva piscava
no céu avisando que iria ajudar a lua a clarear o sertão naquela noite,
pareciam que não davam trégua ao sertanejo, e as noites ficavam mais claras.

 

         
Dona Maria chamou seus filhos para dormirem, já era tarde da noite e nem
uma nuvem no céu aparecia para alegrá-los, seus olhares estavam tristes, pois
aguardavam a chuva com ansiedade e nem um sinal.

 

         
Na madrugada ouve-se um grito, era um grito de alegria, Dona Maria
acordava todo mundo, acreditava que a chuva estava chegando, um cheiro peculiar
da chuva trazido pelo vento invadia a velha casa, esse odor sentido por todos naquele
sertão anunciava a chuva.

 

     -
Meninos peguem as latas, coloquem nas goteiras, ainda hoje a noite vai chover,
venham logo, peguem todas que puderem. – Gritava Dona Maria enquanto
incentivava os meninos a andarem rápidos, era comum juntar água da chuva para
lavar as vasilhas e outras coisas.

 

         
A noite seguiu e nada de chuva, mas todos comprovaram que o cheiro de
chuva era forte, dava para sentir uma leve brisa no rosto. O horizonte era
vigiado por todos, mas nem um relâmpago riscava o céu para avisar que a chuva
se aproximava.

 

         
Dona Maria ficava ali, junto a todos, rezava e dizia com convicção:

 

     -
A chuva ta ai por perto, to sentido que ela vai chegar ainda essa noite.

 

     -
Mãe, será que ela vem mesmo, to com muito sono e vou é dormir, se ela chagar a
senhora me chama viu. – Diz Ciço com um jeito sonolento.

 

     - Ta
bom meu filho, vai dormir, se começar a chover eu vou fazer uma festa, você vai
acordar com tanto rebuliço. – Diz Dona Maria com um sorriso tímido.

 

         
Depois de certo tempo, os sete filhos estavam dormindo, o sono e o cansaço
os faziam cair na cama de colchão de capim. Dona Maria permanecia ali,
observando o céu na expectativa de começar a chover logo, logo.

 

        
Amanheceu e nada de chuva. Dona Maria meio sonolenta ajeitava no fogão
de lenha umas broas e um café ralo para amenizar a fome dos filhos que
começavam a acordar.

 

        
Num gesto comum Dona Maria saiu até o terreiro, colocou a mão na testa
para encobrir os olhos da luz do sol e olhou para o céu e depois para o
horizonte tentando achar alguma nuvem, mas nenhuma aparecia ou dava o ar da
graça naquele momento.

 

         
Sem perder a esperança Dona Maria volta até o velho fogão de lenha e
fala para seus filhos:

 

     -
Não vamos perder a esperança, vamos aguardar com fé que minha Nossa Senhora vai
mandar chuva, nossas rezas e novenas nunca foram em vão, sei que essa seca ta
grande, mas nossa fé é maior, vai cair chuva, sei que vai.

 

     -
Sei não mãe, já faz tanto tempo que não chove, que nem sei como é a chuva, toda
noite aparece em meus sonhos, mas fico só olhando, não é como antes que a gente
ia prá chuva se banhar e brincar, eu acho que ela não vem mais não. – Diz Ciço,
o filho mais velho expressando um olhar de pesar.

 

     -
Meu filho não carece de chorar com isso não, sei que Nossa Senhora olha por
nós, ela vai mandar chuva, pode acreditar. – Diz Dona Maria enquanto acaricia
seu filho que começa a marejar os olhos.

 

     -
Vamo acabar logo com isso e vamo logo pra roça, nós tem que preparar a terra,
minha mãe tem razão, Nosso senhora não vai faiar. – Diz Luis tentando alegrar
os irmãos.

 

     -
Tem razão meu fio, temo que tê fé, Nosso Senhora num faia, toda vez que nós
hora pra ela, ela faz nosso pedido, num é dessa vez que vai faiar. – Diz Dona
Maria encobrindo os olhos já marejando e com o coração apertado de tanto de ver
os filhos daquele jeito.

 

     -
Então vamo logo, dessa vez só vai eu, Luis e Rosa, o resto fica ai prá ajudar
nossa mãe. – Diz Ciço assumindo o papel do homem da casa, pois seu pai tinha
morrido num ataque de um boi raivoso que o matou com o chifre afiado enquanto
lidava como vaqueiro da fazenda vizinha.

 

         
Dona Maria se despediu dos filhos e ficou observando enquanto eles
desciam até a baixada, local de plantação de milho, feijão, jerimum, melancia e
melão. Depois de um aceno final voltou para o velho fogão de lenha, pois o dia
estava apenas começando, tinha muito que fazer.

 

         Ciço, Luis e Rosa seguem caminhando em
direção a baixada. Luis e Ciço com suas enxadas nas costas, enquanto Rosa leva
num saco algumas sementes de milho e feijão para plantar acreditando que a
chuva ia chegar logo.

 

        
Ao se aproximarem do poço do riacho que por falta de chuva tinha secado,
só restando um pouco de lama na parte mais funda. Observaram que havia uma leve
neblina envolvendo os pés de ingá que ficavam a margem do poço do riacho.

 

        
O poço do riacho estava encoberto pela neblina, dificultando uma visão
precisa, os pés de ingá deixavam apenas alguns galhos a mostra, o resto estavam
envolvidos na neblina que naquela época e local era um fenômeno.

 

         
Ciço parou e começou a observar melhor, achando estranha aquela neblina
naquela hora do dia, pois o dia no sertão começa cedo e o sol já ardia e
mostrava toda vegetação seca do lugar.

 

        
Luis foi andando por outro lado admirando aquele fenômeno, desde então
nunca tinha visto, só ouvido falar, mas nunca tinha visto de perto uma neblina
daquele jeito, envolvia os pés de ingá e o poço do riacho, nada mais.

 

       
Como os mais velhos dos filhos de Dona Maria, Ciço e Luis começaram a
achar estranho, ouvia os mais antigos comentarem sobre a neblina, mas nunca
tinha presenciado uma, e mais, numa época de seca que nem chuva tinha caído
ainda, ai que ficou estranho.

 

         
Ao se afastarem de Rosa enquanto observam o fenômeno não perceberam que
sua reação estava assustadora. Rosa olhava para o pé de ingá mais alto com um
olhar assustoso. Sua reação era extrema, parecia ter visto algo sobrenatural.

 

       
Quando Ciço percebeu que Rosa estava assustada com alguma coisa que via
num pé de ingá chamou Luis:

 

     -
Luis, venha cá! Acho que Rosa viu alguma coisa, olha só como ela ta assustada,
parece que viu inté assombração.

 

     -
Deixa de conversa Ciço, isso é coisa de falar, vamos logo vê o que ta
acontecendo com nossa irmã. – Diz Luis tentando deixar Ciço sem graça.

 

         
Os dois se aproximam de Rosa, que não muda seu olhar de assustada e com
um gesto apontando o dedo indicador e fala:

 

     -
Olha ali Nossa senhora!

 

     -
Aonde! Que conversa é essa Rosa, ta vendo coisa é? – Diz Ciço sem acreditar em
Rosa que continua apontando para o pé de ingá.

 

     -
Eu to vendo! – Diz Luis assustado com a imagem que aparece sobre o grande galho
de ingá, perto da copa.

 

     -
Eu não to vendo nada! O que vocês tão vendo, pode me falar? – Diz Ciço ainda
duvidando dos irmãos.

 

     -
É Nossa senhora Ciço! Ela ta lá no galho de ingá. Ela chega a balançar o galho
com o peso dela, olha lá! – Diz Luis com convicção.

 

     -
Você ainda num ta vendo Ciço, olha lá no galho, tem um luz lá, chega fica claro
com a neblina, olha direito, lá naquela luz, olha só. – Diz Rosa apontando o
dedo para a direção em que a luz aparece clareando a neblina que circunda o pé
de ingá.

 

         Depois de olhar criteriosamente para onde
Rosa aponta o dedo, Ciço abismado também ver a imagem de Nossa Senhora que
permanece sobre o galho de ingá envolvida pela neblina. A luz que a envolve e
bem suave, apenas clareia a imagem revelando sua beleza.

 

        
Numa reação incrível Ciço pega nos braços de seus irmãos e começa a
correr na direção de sua casa. Enquanto correm Rosa e Luis não deixam de se
voltar para trás na tentativa de ainda ver Nossa Senhora no galho da ingazeira.

 

         
Com a aproximação dos três numa correria só, os cães que estavam pelo
terreiro da velha casa se assustam e começam a latir sem parar. Algumas
galinhas que ciscam por perto também saem em disparada, todos os bichos parecem
assustados com a correria que os três irmãos fazem na direção da casa.

 

        
Ao chegaram ao terreiro da casa Dona Maria vendo o reboliço dos bichos
sai pra ver o que é que é. Quando ganha a saída da porta observa que seus três
filhos estão parados, assustados e cansados de correr. Na tentativa de saber o
que é, Dona Maria fala:

 

     -
O que aconteceu? Por que estão tão assustados, parece que viram alguma
assombração? – Diz Dona Maria estranhando a atitude dos filhos.

 

        
Ciço ainda tentando recobrar sua respiração fala com dificuldade:

 

     -
Mãe tem uma Nossa Senhora lá na baixada, no poço do riacho, num pé de ingá.

 

     -
Que estória é essa meu filho? O que você ta dizendo? – Diz Dona Maria
expressando uma reação de medo.

 

     - Tem mesmo mãe? Nós vimos lá no pé de ingá,
tem uma Nossa Senhora igualzinha aquela lá da igreja, aquela que vai pra
romaria prá pedir pra chover. – Diz Luis confirmando o que Ciço disse.

 

    - É
verdade mãe? Eu que vi primeiro, depois mostrei prós meninos, Ciço viu por
último, mas ela tava lá, bonitinha, igualzinho a da igreja. – Diz Rosa também
confirmando o que seus irmãos disseram.

 

     -
Então vamos lá que quero ver se isso é verdade? – Diz Dona Maria já caminhando
em direção a baixada.

 

        
Numa caminhada só Dona Maria e seus filhos chegam aos pés de ingá a
margem do poço do riacho. Apenas uma leve neblina ainda envolvia os pés de
ingá, nada mais.

 

         
Dona Maria ainda queria duvidar, mas seus três filhos afirmavam com
clareza o que viram. Diante do pé de ingá ainda envolvido com um pouco de
neblina, coisa rara naquele tempo de seca, Dona Maria se ajoelha, seus filhos
vão um a um também seguindo seu gesto. Aquela cena poderia causar comoção em
qualquer um, mas todos começaram a rezar em voz baixa como se recebessem algum
sinal para isso. A neblina foi ganhando o céu começando a formar uma pequena
nuvem.

 

        
O cheiro da chuva começou a aparecer ganhando todo o roçado e a
caatinga. O vento foi ficando mais forte, as árvores pareciam ganhar alegria
balançando os galhos ainda sem folhas, alguns pássaros apareciam e começavam a
cantar, era um canto de alegria, tudo parecia renovar a esperança e que depois
de tanto tempo a chuva ia voltar para o sertão.

 

        
Passaram-se os dias e no terceiro dia ainda sem chover ouve-se o
comentário que Nossa Senhora apareceu novamente na Baixa Grande, uma pequena
vila vizinha. Passaram-se os dias e no quinto dia ouve-se o comentário
novamente que Nossa Senhora apareceu da mesma forma, agora na Fazenda das Canafistas.
Passaram-se os dias e no sétimo dia começou a chover, era uma chuva leve e
duradoura, dava para aparar a água da chuva nas goteiras da velha casa, os
pássaros tomavam banho, assim como todos os seres vivos do sertão, dava para
perceber que era uma chuva abençoada, sem trovões, sem relâmpagos. No dia
seguinte deu pra ver que a água tinha lavado toda alma viva do sertão e deixado
a terra pronta para o plantio. O verde começou a aparecer e mudar a cor do
sertão.

 

 

 

 

 

 

 

Este
conto é baseado em um fato real, mas duvidado por muitos que não acreditam nas
histórias de crianças e jovens que em suas angustias vêem além do mundo real.
Os personagens são fictícios.



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LÉO BARGOM

LÉO BARGOM

Léo Bargom Leonires Barbosa Gomes nasceu em Iguaracy-PE, a 5 de fevereiro de 1961. Antes de completar 10 anos de idade, os seus pais levaram-no para Brasília onde permanece até hoje. Cresceu por entre livros, gibis e outros tipos de lei


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