Aconteceu um dia destes. Júlia saía a pé do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Estava pensativa, preocupada com o tema que iria escolher do projeto experimental para a conclusão do seu curso de jornalismo. Ao passar por um outro prédio do campus, desviou subitamente sua atenção para cima, como se algo puxasse o seu olhar. Para sua surpresa, um homem caíra do topo do prédio. Durante alguns segundos ficou parada olhando, sem entender direito o que tinha acontecido. Quando deu por si, correu em direção ao corpo que jazia no chão. Era um rapaz jovem que já não respirava. Seu rosto estava manchado de sangue, mas mesmo assim ela o achou bonito. Logo formou-se uma pequena multidão em volta. Um funcionário da universidade cobriu o corpo com um lençol e improvisou o isolamento da área. Júlia achou melhor continuar seu caminho de volta para casa.
Naqueles dias, a garota não tirava aquele rosto do seu pensamento. Lembrou da cena durante as aulas e chegou a sonhar com aquela situação. Tentou se informar sobre o rapaz e não teve dificuldades em descobrir quem era e o que fazia, já que durante a semana não se falou em outra coisa naquela universidade. Seu nome era Joel, estudava Sociologia, era natural de uma cidade do interior e morava na Casa do Estudante. Falaram que ele havia cometido suicídio, já que tinha deixado um bilhete contando da sua depressão e da terrível vontade de dar cabo da vida. Ele não havia se adaptado a Recife, nem era feliz na casa onde morava, famosa por abrigar estudantes que vinham de outras cidades e não tinham condições de alugar um apartamento nem possuíam parentes que pudessem lhes dar guarita.
Sensibilizada Júlia decidiu que o seu projeto experimental seria um documentário em vídeo sobre a Casa do Estudante. Mostraria as condições de moradia, mas também falaria da saudade que apertava o peito daqueles jovens que haviam deixado suas famílias para realizarem o sonho de estudar numa universidade. Seria uma denúncia, mas com uma abordagem poética. Feliz da vida, a garota escreveu um roteiro, marcou com um amigo que sabia manusear uma câmera profissional, e fez um outro de iluminador. Passaram um dia na casa, entrevistando estudantes, filmando cada quarto, gravando depoimentos. Teve um que até declamou poesia. Exultante Júlia seguiu para casa, certa de que tinha um material riquíssimo em mãos.
Na semana seguinte levou as fitas para editar numa conhecida produtora de vídeo da cidade. O trabalho de edição corria muito bem, até ela começou a sentir uma espécie de calafrio. Era algo estranho, que aumentava à medida que ela via as cenas gravadas. Júlia pensou até em desistir do projeto, mas já havia marcado a apresentação, e não teria tempo para preparar outro material. Como a sensação de pavor era imensa, decidiu chamar um amigo para que ele supervisionasse a edição em seu lugar. Horas depois, o amigo lhe telefonou dizendo havia concluído o trabalho, mas havia achado muito estranho o fato de um mesmo rapaz aparecer em quase todas as cenas, sempre ao fundo e falando alguma coisa para a câmera. Algo que ele não conseguia entender.
Júlia pegou a fita editada para ver em casa, e qual não foi o seu espanto ao descobrir que o rapaz era idêntico ao que ele era vira morto na universidade. Sim, ela tinha certeza: era Joel ! Ficou apavorada, mas mesmo assim tentou entender o que o rapaz dizia. Após várias tentativas de "leitura labial", percebeu que a frase era "Mande rezar uma missa pela minha alma", repetida diversas vezes ao longo da fita. Após se recuperar do susto, Júlia mandou rezar uma missa pelo suicida. Conseguiu adiar a apresentação do projeto com uma extrema facilidade, editou de novo o material gravado, onde estranhamente não mais se via a prece de Joel. E da banca examinadora, de forma unânime, recebeu um dez com louvor.
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