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Matérias / Histórias Incríveis

Prova de Amor

Ao procurar a filha, o pai encontra no lugar alguem muito diferente dela.


Luiz Alberto Hasse

Enviado por Luiz Alberto Hasse em 23 de Agosto de 2004. Escreva para o autor


Houve uma noite em que José Pedro, que vivia no campo, cuidando de suas ovelhas e plantações, com sua mulher e sua filha, acordou inquieto. Já passava da meia-noite e ele se levantou, ficando rapidamente alerta. A mulher, que dormia ao lado, fitou-o nos olhos e nada disse. Como que para responder a uma pergunta silenciosa, mas, mesmo assim muito eloqüente, ele disse:

-Acho que ouvi um barulho. Não sai daí.

A mulher seguiu-o como os olhos, uma expressão de medo neles. José Pedro caminhou pelo corredor estreito e curto e se postou ao lado da porta do quarto da filha. Escutou com calma, mas, desta vez, parecia não haver som algum. Abriu a porta o mais silenciosamente que pôde e caminhou devagar até ficar ao lado de sua cama. Sentia um vago termo, uma impressão indefinível de que alguma coisa estava errada. E de fato estava.

Virando-se para ele subitamente, com os olhos arregalado e um sorriso meio ensandecido, havia um rapaz na cama de sua filha adolescente. Teria mais ou menos a mesma idade dela, quinze anos, e, para acrescentar um toque de bizarro ao que já era assustador, ele estava usando a camisola de dormir da menina, que fora seu presente do aniversário mais recente.

O agricultor saltou para trás soltando um grito. Talvez ele esperasse acordar naquele instante de um pesadelo medonho, mas não foi o que aconteceu. O jovem pôs-se de pé e disse, ainda sorrindo com aquela zombaria mórbida em seu rosto de delinqüente:

-Que olhos grandes você tem, papai!
José Pedro demorou para articular a frase, mas ela finalmente saiu:
-O que você fez com a minha filha?

O rapaz apenas continuou sorrindo, e pôs as mãos na cintura, num gesto de petulância e desafio, o agricultor começou a sentir raiva no lugar de medo, e tornando-se visível que o invasor não portava arma nenhuma, gritou, avançando:

-Te fiz uma pergunta! Com é que tu entrou aqui? Onde é que ta minha filha?
-Sua filhinha estava deliciosa, Zé Pedrinho...

Era o apelido entre os amigos. Aquele garoto a conhecia bastante de sua casa e de sua família, era evidente, e agora era necessário agir. Homens como Zé Pedrinho eram de ação e paixão, e de pouco planejamento, e o dono da casa aplicou um soco bem dado na orelha do rapaz, que caiu sem reagir. No chão, apenas murmurou, agora sem sorrir:

-Mãozinha pesada...

A resposta de Zé Pedrinho foi um chute entre as pernas do jovem caído, que emitiu um gemido baixinho, e, lentamente, se pôs de joelhos, apoiando a cabeça no chão. Era um jovem magro e pálido, e não havia dúvida de que o homem do campo, com seu corpanzil largo e forte, podia manter a situação sob controle, em sua fúria crescente:

-Responde o que eu te perguntei!
-A porta estava aberta...
-Quê?!
-Perguntou como eu entrei. A porta estava aberta.

Aquilo era demais. Como é que alguém naquela situação podia estar brincando?! Só se... sim, era isso, ele não estava sozinho! Havia outros do lado de fora! Outros delinqüentes sem respeito pela casa dos outros nem pelos mais velhos! O medo voltava. Zé Pedrinho levantou o invasor do chão pelos cabelos e torceu seu braço atrás das costas. Enfiou sua cara na parede do quarto, emitindo baque. Em nenhum momento o jovem reagiu ou se queixou. Apenas comentou, com sangue escorrendo da boca e do nariz:

-É fácil ser valente com alguém com metade do seu tamanho, né?
-Quantos vocês são? Fala! Tem mais alguém contigo? Fala senão eu quebro teu braço, moleque!
-Eu to sozinho... e vou sair daqui sozinho.
-Duvido!
-Então quebra meu braço. É divertido machucar quem é mais fraco...

Zé Pedrinho ficou sem fala. Jogou o garoto no chão, houve um estalo, talvez da madeira, talvez das suas costelas. Ele franziu os olhos de dor, mas esboçou um sorrisinho. Olhou por cima do ombro do homem e disse:

-Oi, dona Lourdes, tudo bem com a senhora?
Zé Pedrinho voltou-se para trás, a mulher estava no corredor, de camisola e com o rosto mais branco que cera de vela. Muda de horror e espanto.
-Tu conhece esse sujeito, mulher?!
-Cadê a Juliana? Cadê a nossa filha?
-Tu conhece esse bosta?! Me responde, antes que eu...
-Cuidado, ele se levantou!!

Em pé e totalmente composto, a não ser pelo sangue no rosto, o invasor olhava para os dois, inexpressivo.

-Não. Ela não me conhece.

A resposta de Zé Pedrinho foi um murro no rosto, que desequilibrou o invasor, e um segundo no estomago, que o colocou sentado sobre a cama da menina. Lourdes começou a choramingar e a tremer. Enquanto apertava o pescoço do rapaz, Zé Pedrinho gritou:

-Te mexe, sua anta! Vai buscar minha arma! Esse desgraçado sumiu com a Juliana! Eu vou fazer ele falar...

A mulher correu, chorando alto agora. O invasor estava com os olhos esbugalhados e o rosto vermelho, e as mãos cerradas ao redor dos pulsos do dono da casa. Seus olhos encontravam os do agressor e, mesmo no domínio da situação, José Pedro sentia ainda um pouco de medo. Aqueles olhos eram perturbadores. Não havia medo, nem respeito, nem dor neles.

Talvez houvesse ódio. Com certeza havia malícia.

-Agora me responde, antes que eu te quebre o pescoço... o que é que tu fez com a minha filha, animal? – disse o homem, afrouxando levemente a pressão.

Num fio de voz, o rapaz respondeu:

-Nada... que ela não...quisesse...

Subitamente, o jovem franzino revelou uma força insuspeitada, arrancou as mãos de Zé Pedrinho do pescoço e, durante o breve momento de espanto que isso causou, repeliu-o com um pé. Não foi sequer um chute, apenas um empurrão, e o homem de noventa quilos foi parar na parede às suas costas. Suas costelas estalaram na tábua e ele caiu.

Quando começou a se levantar, o jovem já estava de pé, tocando levemente as marca que havia em seu pescoço. Não havia mais sorriso nem gracejo no olhar. Seu rosto, o rosto de um fedelho de quinze anos, petulante e sereno, era pura determinação e ódio. Um ódio frio e adornado de segurança.

Zé Pedrinho sentiu medo. Mais do que achava que podia sentir de outro homem.

-É diferente quando alguém reage, né? – disse o rapaz, numa atitude meditativa – Acho que você não ta acostumado.

Deu um passo inofensivo na direção do homem. Foi o suficiente, pois, evitando aqueles olhos a qualquer custo, o agricultor se colocou de pé aos tropeços e correu para fora do quarto. Encontrou a mulher, de rosto vermelho, parecendo em choque, com a velha espingarda nas mãos. Tomou-a num gesto relâmpago e engatilhou. Tinha o costume de guardar carregada.
O garoto de camisola surgiu na porta do quarto. Sorriu mais uma vez. Seu andar não dava nenhum sinal de que tinha levado uma surra.

-Atira, covarde. Me dá mais um motivo.

Por puro instinto, Zé Pedrinho disparou. No terror sobrenatural que aquele sujeito lhe inspirava, ele chegou a acreditar que o chumbo iria ricochetear em seu peito, apenas estragando o presente de Juliana, que ele agora usava, e que ele ia continuar avançando. Chegou a antecipar suas gargalhadas.

...continua...

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