Vou lhe contar uma história que aconteceu em 1973. Laura jamais se esquecerá do que presenciou naquela madrugada de sábado ...
Os Novos Visinhos
Na pequena casa na cidadezinha de Ribeirão Pires, morava uma senhora chamada Laura.
Apesar de ter muitos filhos, a velha morava sozinha e a única companhia era uma grande coelha branca que havia ganhado do seu neto.
Nos fundos da casa Laura tinha uma horta que gostava muito, passava várias horas regando pés de hortaliças, couves, alfaces, etc...; Ao lado da casa tinha um terreno que no centro existia um barraco mal acabado, pois desde quando Laura comprou a casa, nunca ninguém morou naquele horrível barraco, mas na manhã de terça-feira, tudo mudaria.
Eram mais ou menos 8:30hs da manhã quando chegou um caminhão de mudança, e logo atrás um carro velho, Laura que era acostumada a acordar muito cedo viu toda a cena.
Desceu do caminhão um homem gordo muito sujo, de dentro do carro desceu um homem negro e alto, junto com o dono do caminhão começaram a tirar alguns móveis de dentro do baú. Logo depois, saiu do carro uma mulher negra muito gorda e atrás dela desceram três menininhas de cabelos crespos tanto quanto o da mãe. Passando alguns minutos, o homem alto, tirou de dentro do caminhão uma caixa de madeira, que ao abri-la, saiu um enorme cão marrom com manchas negras.
O carro e o caminhão estavam estacionados em frente ao terreno, onde havia o barraco, Laura logo previu que terá novos vizinhos. Seria até melhor, pois vivia muito sozinha naquele lugar.
No dia seguinte, logo cedo houve-se o barulho de martelo, Laura foi analisar o que era aquilo.
O homem negro estava reformando o barraco, pois realmente precisava de reformas, ao lado dele estava o enorme cão, Laura sentiu um arrepio na espinha, pois tinha pavor de cães desde quando um mordeu-lhe o pescoço deixando uma enorme cicatriz. Em seguida notou que uma das crianças estava observando-a, mas logo a mulher gorda saiu de dentro do barraco e num ato de grosseria, puxou a criança para dentro daquele imundo lar.
Após uma semana, o lugar que antes era um barraco, havia virado uma casa simples, mas já não era mais aquele barraco desprezível.
Laura nunca havia conversado uma só palavra com aquela gente, foi quando um certo dia, ao sair para colher alfaces, Laura se deparou com uma das menininhas perto da cerca de arame, que separa o seu terreno com o da família negra. A criança estava parada observando a coelha comer uma cenoura, a velha se aproximou da menina e perguntou o que ela achava de sua linda coelha, a garotinha fitou-a com um olhar grotesco e desvencilhou uma palavra de origem haitiana e em seguida correu em direção a casa. Laura nunca tinha ouvido aquela palavra antes e nem entendeu por qual motivo a menina à olhava com tanto ódio.
Na noite de quinta-feira, Laura ouve o latido do cão daquela família, mas o assustador era que o barulho vinha do seu quintal. A velha levantou-se tremendo de medo e pegou a lanterna para ver o que estava acontecendo. Abriu a porta com cautela, e de repente viu o vulto do cachorro passar correndo diante de seu olhos, Laura tentou focalizá-lo com sua lanterna, mas o que via não era mais o cachorro da família vizinha, mas sim, a sua tão querida coelha branca, agora estraçalhada no chão.
Sua coelha que tanto amava, agora morta, estraçalha no chão, irreconhecível, suas tripas e sangue espalhados pelo local. Laura começou a passar mal quando presenciou aquela cena horrível, pois a coelha era a sua única companhia.
Naquela noite a pobre Laura não dormiu, fez um chá de erva cidreira e ficou sentada à mesa da cozinha a bebericar em prantos o seu chazinho. Ao amanhecer ela foi até o quintal, olhou sua doce coelhinha que tanto amava, teve boas lembranças de quando à ganhou até o presente, pois agora está cheio de formigas e mosquitos. Enterrou-a em um espaço vazio que havia em sua horta, pois lá era o lugar que a coelhinha mais gostava.
Durante o dia, Laura viu o enorme cão rondando a cerca de arame, ela sentiu uma cólera ao ver o animal, sua vontade era ir ao seu alcance e decepá-lhe a cabeça, mas Laura não tinha coragem de chegar perto do cachorro. A tarde se estendeu com grande amargura para Laura, que ficou sentada a maior parte do tempo em sua cadeira de balanço. Diferente de seus novos visinhos que estavam muito felizes, pois chegara várias pessoas na casa deles, e o ritmo era de grande festa, tinha até um bode enorme amarrado ao pé de limão, que ficava no quintal da casa.
Ao cair da noite o barulho na casa da vizinha era tremendo, tambores e músicas cantada pelas pessoas que lá estavam, fez com que Laura perdesse o sono. A pobre senhora, por sua vez, levantou-se e foi até o quintal onde dava vista para a casa da família, observando-a sorrateiramente.
A luz do lugar estava apagada, mas olhando bem, havia uma pequena claridade no centro da casa, Laura achou aquilo estranho, pois pelo barulho mais parecia que havia uma festa. Foi então, que tomada pelo ódio da morte de sua coelha e pela barulheira que estava acontecendo, Laura foi até a casa da vizinha barulhenta.
A lua estava redonda como uma bola brilhante, o nevoeiro estava intenso que Laura mal podia ver seus pés. Ela se dirigiu até o portão da casa de sua vizinha e bateu palmas, mas isso não iria adiantar em nada, pois o barulho estava muito alto. O único jeito foi abrir o portão e descer até a casa para bater na porta , mas no meio do caminho lembrou-se do enorme cão, o medo tomou conte de seu corpo.Quando olhou para trás deparou-se com o cachorro, mas ele estava preso em uma corrente, afinal, a dona da casa tinha visitas nessa noite.
Laura achou que teu maior susto havia passado e que agora iria conversar com o dono da casa, pois o barulho era demais, mas ao passar pela janela que estava com luz acesa , Laura deparou-se com a mais abominável de todas as cenas que ela havia visto na vida.
O local em que a família e as visitas se reuniam estava repleto de velas clareando o enorme bode que agora estava amarrado de cabeça para baixo, rodeado de pessoas que ali estavam. O barulho de tambores era ensurdecedor, o pobre animal estava assustado, e Laura por sua vez estava mais assustada do que o próprio bicho, pois não entendia o que estava acontecendo. Foi quando o dono da casa pegou um enorme taco de madeira e começou a espancar o bode, o bicho gritava e esperneava, e os tambores cada vez mais alto era sendo tocado, Laura não estava acreditando no que estava acontecendo, afinal não tinha sentido fazer aquilo com o animal.Mas o fato mais demoníaco ainda estava para acontecer.
Laura estava presenciando do lado de fora tudo o que se passava, podia ouvir os gritos do bode, pois era alto tanto quanto o barulho dos tambores. Passara-se alguns minutos, o bode já estava todo ensangüentado, Laura estava chorando quando viu uma cena que quase fez soltar-lhe um grito. O animal estava morto, todos cantavam e dançavam. Foi ai que um grito horrível saiu da garganta do bode, todos pararam e olharam-no, o bode não estava mais morto, pois as pessoas que ali estavam fizeram um ritual satânico, em que um animal de corno (chifre) depois de ser espancado até a morte volta por alguns minutos encarnado pelo próprio Lúcifer, para que assim ele possa satisfazer o desejo de quem o chamou.
A assustada Laura arregalou os olhos quando ouviu o animal pedindo para o negro o soltar, e depois ficando em pé como se fosse uma pessoa, ele caminhou até um altar com pano vermelho onde havia um trono muito elegante, e ali sentou-se com charme de um grande príncipe , e as pessoas que ali estavam ajoelharam e beijaram suas patas.
Laura estava prestes a gritar quando um caminhão parou diante do portão, e dele saiu o homem gordo que semanas atrás havia trazido a família, junto dele estavam as três irmãs. Uma delas trazia uma criança nos braços, enrolada em um cobertor, Laura ficou curiosa, afinal o que aquelas pessoas iam fazer com a criança.
Ao entrarem na casa, ajoelharam diante do Satanás em forma de bode, então, rapidamente pegaram a criança e levaram-na para o altar. Laura, pela primeira vez presenciou o sacrifício de uma inocente criança, que agora Lúcifer bebia o sangue.
Laura correu em direção a sua casa, entrou no quarto, pegou seu terço bizantino e rezou com toda a sua fé. Foi ai que ouviu umas gargalhadas de criança do lado de fora do quarto, abriu a janela e viu a horrível imagem das três filhas do seu visinho sentadas no muro, mas a fisionomia delas estava diferente, elas agora tinham dentes enormes e afiados, olhos vermelhos, e davam risadas medonhas, e ainda diziam com vozes cavernosas pedindo para Laura rezar mais, pois nada que fizesse pararia o ritual que estava acontecendo na casa. Laura desmaiou.
Ao acordar no dia seguinte, correu ao telefone e ligou para o seu filho mais velho e lhe contou o que havia acontecido, Cícero ao sentir o desespero da mãe, disse que durante a tarde estaria lá, junto dela, para ouvir melhor o que aconteceu.
Durante todo o tempo Laura não saiu de casa, até que ouviu a voz do seu filho no portão chamando-a, levantou e foi atendê-lo. Cícero entrou e ouviu a toda história que sua mãe contou-lhe as lágrimas, seu filho ficou abismado com o que ouviu e rapidamente foi até o telefone e ligou para a polícia.
No final da tarde os policiais chegaram, Cícero lhes contou toda a história, eles ficaram chocados, interrogaram Laura e depois foram até a casa que na noite passada havia o macabro ritual satânico. Laura disse que não queria acompanhá-los.
Passaram-se alguns minutos e eles voltaram dizendo que a casa estava abandonada, e que não havia ninguém no lugar a algum tempo, pois estava muito suja e tinha teias de aranha por toda parte. Laura já não sabia mais como fazer para os policias acreditarem na sua história.
Logo a noite, depois que os policiais foram embora, Cícero propôs que sua mãe deixasse aquele lugar e fosse morar com ele, Laura aceitou a sua proposta pois não conseguiria ficar nem mais um minuto naquele lugar, foi ai que ela perguntou para o seu filho se realmente acreditava em tudo o que falava, Cícero encarou-a e disse que acreditava em tudo o que ela dizia, e ao falar isso, contou-lhe o que realmente aconteceu quando estavam vasculhando a casa. Cícero prosseguiu falando que ao passar no quintal da casa viu o bode morto ao pé da arvore, mas os policiais não viram o animal. Laura o abraçou forte e disse que nunca mais esqueceria o que aconteceu naquela madrugada de sábado.
Danilo “Kiss” Fernandes