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Relatos

Um pacto bem feito não volta atrás


mary christie

Enviado por mary christie em 1 de Agosto de 2008. Escreva para o autor


Minha amiga A. era a coisa mais importante que eu tinha na vida. Dormia em sua casa quando saíamos, porque minha casa era distante do centro. Ficar ao lado dela era uma festa. Tinha o dom de me fazer rir mesmo nos meus piores dias. Um dia ela me ligou pedindo que eu fosse imediatamente a sua casa. Os pais dela haviam viajado o irmão que deveria ficar com ela aproveitou a ausência do pai e saiu com os amigos. Senti o desespero em sua voz e corri para lá. Chegando lá, as luzes da casa estavam todas acesas, ela me relatou o que havia acontecido. Estava deitada e já adormecia quando ouviu a porta do quarto abrir vagarosamente e sentiu alguém subir de “gatinhas” sobre ela. Pensando ser o irmão, ela começou a repreendê-lo rindo, porém seu corpo foi paralisado e o ser começou a se aproximar. Ela sentiu a respiração dele bem próximo ao seu rosto e sentiu seu cabelo grande cair sobre sua garganta apertando seu pescoço. Ouviu o som do bater de asas. Ela gritou. Nenhum som saiu de sua voz. E quando a força invisível parecia dominá-la por completo ela conseguiu erguer as mãos e apertar seus pulsos. Sentiu-os magros como se tivesse tocando um corpo seco. Pensou que fosse morrer e lembrou-se de pedir auxilio a Deus. Ouviu o ser numa voz gutural rir dela dizendo.

- Você já me pertence. E daqui um mês vou te levar. Nem um dia a mais nem um dia a menos.

Enquanto me contava a sua história numa voz trêmula e soluçante. Lágrimas copiosamente desciam de seu rosto. Fiquei pensando comigo que um pesadelo por mais estranho que fosse não levaria alguém as lágrimas daquela maneira, eu mesmo já tive muitos. Alguma coisa ela escondia de mim. Tentei sondá-la com tato, mas ela simplesmente parou de chorar. Enxugou o rosto numa toalha e pediu que eu não a deixasse sozinha aquela noite. Não a deixei.

Uma semana depois ela me ligou dez horas da manhã. Era sábado e ela não ia trabalhar. Por isso ficou mais tempo na cama. E foi visitada pelo hediondo ser.

- Mary. Ele voltou. - Cochichava numa voz estarrecida. De pavor - O que faço? Esteve aqui rindo de mim. Falando que me levaria. Eu troquei Mary, e agora acho que ele veio cobrar.

Perguntei o que ela havia trocado e ouvi seu soluço do outro lado. Eu já suspeitava o que ela havia feito. Não foi difícil juntar os pingos nos is. Há dois anos atrás o pai dela havia sofrido um acidente de moto e ficou em coma três meses. A. havia ficado muito distante nesses dias. Notei em seu quarto livros de magia, feitiços e bruxarias. Perguntei o que ela fazia com aquele tipo de literatura e ela respondeu que era curiosidade. Confesso que fiquei “grilada”, porém não a interroguei mais. Seu pai num dia estava em coma no outro já estava levantando da cama. Dizia os médicos e quem cuidou dele que sua recuperação foi um milagre grandioso. Ninguém jamais voltou de um coma daquela natureza. Lembrando desse episódio, rapidamente corri a sua casa e arranquei dela o que suspeitava. Ela entre soluços confessou tudo. Havia trocado sua vida pela de seu pai num pacto demoníaco e o que aquele ser queria era receber o que comprara. Estava amedrontada, não sabia o que fazer. Eu a repreendi falei um monte para ela disse que deixasse de ser boba que parasse de acreditar nisso que era tudo fantasia da cabeça dela. Eu mesma queria acreditar no que dizia. Queria que não fosse verdade, queria que ela não tivesse feito isso. Hoje eu penso que podia ser menos rude com ela. Vendo que eu não podia ajudá-la ela recorreu a outros meios. Não a recriminei. Até a estimulei. Mas um pacto feito não volta atrás. Alguns dias depois ela foi atropelada por uma moto e morreu.   

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